Em muitos contextos, a palavra “fé” é interpretada como algo que envolve uma mística profunda – seja por experiências particulares ou pelo pensamento coletivo do nosso país, a visão mais comum e corriqueira é que ela se trata de algo místico, marcado por experiências arrebatadoras ou por atividades sobrenaturais constantes. Num contexto cristão, muitos creem que a vida religiosa deveria ser marcada por um ar de mistério, em que, se muito eu buscar conhecer a presença arrebatadora do Senhor Deus, Ele se manifestará de forma poderosa, quase mágica, envolto em mistério. A base disso, em parte, está correta. Cremos que nosso Deus não se esconde, pelo contrário, ele se coloca ao alcance do homem – que pode conhecê-lo através da fé e da sua revelação – e que muito do que podemos experimentar da divindade se alcança, nas palavras do Catecismo Maior de Westminster, orando “com entendimento, fé, sinceridade, fervor, amor e perseverança, esperando nele com humilde submissão à sua vontade” (Pergunta nº 185). Contudo, nesse mesmo pensamento, está uma incompreensão severa da vida cristã e das suas dádivas. Sobre isso, brevemente, quero falar.
Nisso, precisamos olhar para a maneira em que a bíblia trata a vida de um homem nascido de novo. Para esse fim, gosto particularmente de como a epístola aos Efésios fala do crescimento na fé. Tratando com gentios, que a poucos anos estavam ainda distantes do povo de Deus e da salvação, o apóstolo Paulo aborda de forma profundamente bela a gloriosa operação Deus neles. Nos capítulos 1-3, há uma exposição detalhada do plano de Deus de fazer de judeus e gentios, povos anteriormente inimigos, uma só nação de fiéis, unidos pelo Espírito Santo e pela paz messiânica inaugurada na obra de Jesus, remidos e preservados em amor. Diante dessas realidades, por duas vezes (1.15-23, 3.14-21) o apóstolo ora pela vida dos leitores, preocupado profundamente com o seu firmamento e perseverança na fé. Esse ponto é exatamente onde quero chegar.
A oração de Paulo é extremamente simples e constrangedora para nós, que tantas vezes enfeitamos a religião com tantas coisas, que esquecemos das suas bases: primeiro “para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele” (1.17), e segundo “assim, habite Cristo no vosso coração pela fé […] a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento” (3.17-19). Perceba: numa cidade marcada pelo culto à Ártemis e pela radicalidade dos seus devotos, Paulo não ora para que os Efésios sejam sempre vigilantes e busquem algum tipo de poder especial para lidar com os levantes malignos que os cercam; num contexto em que a fé dos ouvintes aparentemente ainda precisava ser consolidada, ele não ora para que eles tenham novas confirmações ou revelações da palavra que ouviram; diante de gentios recém chegados à comunidade de Deus, Paulo não encoraja que eles busquem nada senão a simples compreensão da verdade que lhes foi pregada.
Assim, veja que essas duas expressões, apesar de carregadas de teologia profunda, possuem uma simplicidade grandiosa. A primeira delas é simplesmente um pedido para que os leitores possam conhecer o próprio Deus. Já a segunda, um pedido para Cristo habite no coração dos leitores, e que eles entendam o amor de Deus. Aqui, vemos a gloriosa simplicidade da fé cristã. Em estarmos em Cristo, em conhecermos o Senhor, não precisamos a todo momento de inovações, profecias, experiências grandiosas ou qualquer coisa do tipo. Jamais devemos negligenciar essas coisas de tal modo que nos tornemos céticos; contudo, por mais maravilhosas que sejam, o foco do nosso crescimento e experiência de fé jamais deve ser procurar novos ventos, mas revisitar a brisa suave que Deus sopra continuamente sobre nós: a palavra do Evangelho.
Assim sendo, voltamos ao cerne da discussão. Se a fé cristã precisasse continuamente de experiências místicas e arrebatadoras para ser completa, certamente a Escritura não trataria a maturidade cristã como sendo baseada na compreensão e prática daquilo que Deus revelou. Se de fato ela precisasse ser tão sobrenatural todos os dias, o Senhor não teria nos dito que o homem bem-aventurado é aquele que “medita” na Lei do Senhor (Sl 1.2,3). E certamente, se Deus esperasse de nós uma devoção sempre tão ritualística e mágica, ele jamais teria nos dito que tem mais prazer na obediência que nos rituais religiosos (Os 6.6). Assim, veja, a fé não é baseada e nem se sustenta por nenhuma dessas coisas. Deus, então, não espera de você algum tipo de adoração arrebatadora diariamente, mas sim que “que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus” (Mq 6.8).
Para encerrar esse assunto, como deveríamos, então, tratar a fé e a vida cristã? Bom, primeiramente, compreendendo que a origem e o cerne dela não estão em qualquer coisa que não a compreensão daquilo que Deus fez e oferta a nós, conforme vimos. Em segundo lugar, é importante compreender que a aparência exterior dela não nos mostra muita coisa. Isto é, a verdadeira fé não é a que se manifesta em uma espiritualidade mística, mas numa mudança de mente que transforma a nossa vida como um todo. Por fim, creio que seja útil, novamente, olhar para o trecho do Catecismo que citei anteriormente: a oração, e aqui podemos expandir para toda a vida cristã, é uma humilde submissão à vontade de Deus. Não é sempre que veremos coisas extraordinárias – se assim fosse, elas seriam na verdade muito ordinárias – e por isso não podemos depender delas para medir a força e a operação da nossa fé. Assim, juntando tudo isso que vimos, podemos dizer com certeza que apesar de incluir grandes complexidades e inexplicabilidades, o cristianismo, no seu cerne, é profundamente simples.