O que significa ser cristão? (2Pe 1.3-9)

I – RECEBER A NATUREZA DIVINA (vv. 3,4)

O texto explica para nós que ser cristão é ser chamado para a própria “glória e virtude” de Deus. Ele nos chamou para si, para nos tornar participantes da comunhão com ele, e aí está o cerne do cristianismo.

Isso, seguindo o fluxo do texto, ele faz em cumprimento das promessas que antes ele havia feito. No AT, Deus prometeu que salvaria o homem do pecado por meio do Messias. Ele também prometeu que, no devido tempo, o descendente da mulher destruiria a serpente, algo que simboliza a vitória final de Cristo sobre a morte e o pecado. Essas promessas, Deus nos deu. Isso significa que ser cristão é receber de Deus o cumprimento da promessa de vida, de que Deus iria no fim nos salvar do pecado.

Contudo, essa ideia vai além simplesmente de um pensamento futuro. Deus nos deu o que precisávamos para a vida e para a piedade, nos convidou a ser participantes das promessas de vida eterna e de mudança de sorte do AT, nos chamou para a sua própria glória e virtude. Isso, contudo, exige que nós busquemos ter o mesmo caráter que ele tem, isto é, ele nos chamou a ser participantes da própria natureza divina. Isso não significa que nós nos tornamos Deus, ou que seremos deuses, mas que seremos filhos do nosso Pai, isto é, copiaremos seu modo de vida, aprenderemos com ele, e viveremos segundo os seus desígnios. Com isso, venceremos o mal do mundo, que existe por causa da cobiça.

Perceba a ideia passada aqui: Deus nos deu as promessas de vida, a comunhão com ele em sua “glória e virtude”. Assim, ele também nos chamou a sermos participantes da sua natureza – isto é, nos chamou para sermos santos, como ele mesmo é santo. Contudo, olhe de novo pro início do texto: “Seu divino poder nos deu tudo que necessitamos para a vida e para a piedade”. Deus nos chama a ser santos, e nos provê as ferramentas para alcançar isso.

Aqui, é importante fazer um reflexão: quantos de vocês estão cansados de lutar contra o pecado, e parecem não sair do lugar? Vejam bem: Deus nos concedeu o que precisamos para vencer. Não nos deu uma tarefa difícil demais, e certamente não uma impossível. A questão aqui é que essa tarefa é imensa. Tão grande, na verdade, que ocupa o espaço de uma vida inteira. Deus continuamente provê o que precisamos para, vez após vez, vencer o pecado e a morte. Entendam, porém, que nem tudo vai se resolver agora. Deus deseja que tomemos tempo, que façamos tudo com diligência e desejo de melhorar, mas não com desespero.

II – RECEBER UM CHAMADO À AÇÃO (vv. 5-9)

Esse pedido de Deus de que nos pareçamos com ele é o que motiva a segunda parte desse texto: “empenhem-se para acrescentar à sua fé a virtude…”. Pedro, depois de expor para nós o que significa, se chamar de “cristão”, começa a expor que tipo de vida deve viver aquele que se diz cristão. Percebam a nuance: quem aceitou as coisas descritas acima já é cristão. Pedro não está pregando uma salvação pelas obras, mas sim pela fé. Quem tem fé naquelas coisas é cristão, mas agora, ganhou uma obrigação de acrescentar à essa fé algumas obras típica de Deus, para alcançar aquela “natureza divina” que ele disse ser o nosso alvo anteriormente.

Perceba: o versículo 5 começa dizendo que “por isso” – ou seja, por causa dessas promessas que Deus nos deu – precisamos nos empenhar em acrescentar à fé a virtude, e as outras coisas. Isso nos mostra que a vida cristã é de constante crescimento. Pedro deixa isso claro no versículo 8: “se essas qualidade existirem e estiverem crescendo em sua vida, elas impedirão que vocês […] sejam inoperantes e improdutivos”. Perceba: para ser operante e produtivo, você não precisa ter todas elas perfeitamente, mas precisa estar com elas em crescimento. Ser cristão é, nesse sentido, viver uma vida que não para de crescer.

A lista de coisas que Pedro constrói agora não resume toda a vida cristã, mas nos dá uma ideia do que precisa ser feito. Para começá-la, está a fé. Deus nos deu todas aquelas coisas citadas no momento em que cremos. Quando você se converte, praticamente só o que você tem é fé. Ela é a base de tudo, e é o que efetivamente te torna cristão. Depois dela, há uma lista de outras coisas, não necessariamente querendo dizer que cada uma é mais importante que a anterior.

Em ordem, as características citadas são:

  1. Virtude: é a prática bondosa do cristão;
  2. Conhecimento: é o saber que vem de conhecer Cristo pelas Escrituras;
  3. Domínio próprio: a habilidade de negar-se o pecado;
  4. Perseverança: a habilidade de não desistir diante da dificuldade;
  5. Piedade: o perdão, a paz e no geral o caráter que imita o de Deus;
  6. Fraternidade: a habilidade de viver como irmãos na igreja de Deus;


Depois de todas estas, porém, está citado o amor. Nessa estrutura, Pedro está basicamente dizendo que a primeira palavra é a base, e a última é a mais importante. Nesse caso, a base é a fé, e a característica mais importante é o amor. O amor é suprassumo da vida cristã. Ser cristão é, no fim, ter um compromisso com o amor.

Depois de citar todas essas características, Pedro afirma, como vimos, que é esperado que elas estejam em crescimento em nós, e assim nós seremos cristãos produtivos e verdadeiros (v. 8). O oposto disso, porém, é estar cego, esquecendo-se de que nossos pecados foram purificados. Isso tem o efeito de dizer que não ter essas virtudes em crescimento em nós é sinal que nós já foi deixada de lado a fé verdadeira em Cristo.

A grande implicação disso para a nossa vida é simples: Deus quer Filhos que se movem cada vez mais em direção dele. Não deixem de crescer na vida cristã! Se leram a bíblia uma vez, leiam duas. Se não entendem a salvação, leiam livros de teologia. Se tem dificuldade com oração, procurem orar. Mas sobre tudo, jamais permitam-se estagnar. Continuem buscando, continuem conhecendo mais, e continuem, principalmente, se esforçando para viver em santidade, segundo a natureza de Deus.

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