A oração do Pai Nosso, ou a oração dominical, ou qualquer outro nome que se dê pra ela, é talvez a oração mais famosa e mais repetida no mundo todo. Nesse exato momento, está sendo orado o Pai Nosso, em português, por uma senhora numa casa próxima daqui, em inglês, nos Estados Unidos, em árabe, por um cristão perseguido no Oriente Médio, em chinês, em grego, em latim, e em outros idiomas. A oração está sendo feita num momento de angústia por alguém que não sabe mais o que orar, e por um jogador de futebol, 2 minutos antes de começar uma partida. É a oração mais versátil do mundo, é a mais famosa, e é a mais correta, porque ela saiu da boca do próprio Cristo.
O texto falado em aramaico, escrito em grego, popularizado em latim e agora lido em português, é para nós protestantes um modelo – não a ser repetido, mas a ser usado como padrão. Ela revela coisas profundas sobre a intenção de Deus com a oração, sobre o caráter de quem ora e sobre o caráter do Deus que ouve. Hoje, quero me ater somente aos dois primeiros versículos, o nove e dez, para falar algo sobre as palavras que iniciam a oração mais famosa do mundo. Meu objetivo aqui é extrair desse texto algum ensinamento para as nossas vidas de oração – o tema do nosso culto – e para o nosso proveito de fé. Para isso, vamos olhar para o primeiro versículo e o que ele revela sobre Deus, e para o segundo, e o que ele revela sobre o que nós deveríamos orar.
I – O DEUS PARA QUEM SE ORA (v. 9)
O versículo nove do capítulo seis de Mateus contém uma das verdades mais complexas e profundas do cristianismo. Falar isso é confuso para a maioria de nós, porque o início da oração do Pai Nosso é simples e objetivo: “Pai nosso que estás nos céus…”. Isso, porém, por mais simples que seja de pronunciar, é uma construção teológica profunda, que para os ouvintes originais soaria única e nova.
A questão é que os judeus, em sua maioria, não tinham o costume de chamar Deus de Pai. “Pai nosso” é uma construção que revela uma intimidade estranha para o Antigo Testamento. Não que Deus não fosse Pai, aliás, em alguns momentos ele é chamado de Pai (Isaías 63.16), mas isso é muito raro – Jesus chamar Deus e Pai é inovador. Essa palavra simples, que provavelmente foi falada em aramaico como “Abba”, traz algumas conotações importantes.
A primeira delas é a de proximidade. O pai ensina o filho, o pai cuida do filho, e o pai, via de regra, não está longe. Qualquer um de nós que teve a honra e o privilégio de crescer com pais presentes sabe muito bem o que significa a intimidade de pai e filho. Jesus, ao chamar Deus de Pai, invoca uma relação de proximidade ímpar. Deus está perto, Deus é Pai, Deus se preocupa e ouve o clamor dos seus filhos. Isso, com certeza, Jesus fala como modelo para nós. Deus é nosso Pai, e ele está verdadeiramente perto de nós.
A segunda, em contrapartida, tem a ver com soberania e obediência. O nosso “Pai”, pela sua posição paterna, é digno de obediência completa. Além disso, está escrito “que estás nos céus”, o que eleva ainda mais o nível. Ele está elevado, está acima, está exaltado sobre toda criatura. Ele é o pai próximo e amigável, mas também é superior em essência, está nos céus, separado, exaltado, e olhando para nós como filhos, mas ainda como criaturas. Perceba o quanto o início da oração é ao mesmo tempo íntimo e reverente: “Pai nosso, que estás nos céus”
O que se segue aqui é uma outra declaração importante: “Santificado seja o teu nome”. Vimos na EBD, faz pouco tempo, que “santo” significa separado. Tem um sentido moral: Deus não tem pecado e a ninguém tenta com pecado (Tg 1.13). Mas, principalmente, tem um sentido essencial: Deus é essencialmente (ontologicamente) separado da criatura. Ele existe em outra substância, ele é mais poderoso, mais importante, mais nobre, melhor que toda criação. Entenda: aquele que cria é infinitamente superior ao que é criado. Essa declaração é simplesmente exprimir que o Senhor é santo. E isso, por sua vez, é assumir a invariável soberania de Deus sobre todo o mundo. A invariável grandeza do Senhor, que está além do tempo, que comanda a história, que guia as nossas vidas, e em tudo é superior.
Veja a imagem que está sendo pintada de Deus aqui! O que isso muda na nossa relação com a oração? Tudo!
O mero conceito de oração é graça! O Deus soberano decidiu por si só nos dar a dádiva da comunicação com ele. Isso deve inspirar em nós uma humildade extrema! Nós que nada somos, recebemos de Deus a dádiva da comunicação.
Assim, meus queridos, não existe “eu declaro”, “eu ordeno”, “eu não aceito”, numa oração para um Deus que é soberano e superior. Quem somos nós, meras criaturas, pra pretensamente ordenar algo ao Criador? Se suplicamos, se agradecemos, se pedimos alguma coisa para nosso proveito, fazemos isso como filhos. E eu duvido que qualquer um de nós tenha coragem de ordenar qualquer coisa ao próprio pai terreno, quanto mais ao celestial. Perceba o quão reverente é a oração que lemos!
A oração é o caminho que o Deus soberano nos deu para que nós o encontrássemos. Façamos uso dela com a devida humildade!
II – OS DOIS PRINCÍPIOS DA ORAÇÃO (v. 10)
O que se segue depois dessa abertura estrondosa da oração, é uma série de pedidos que revelam o que Deus espera de nós enquanto oramos. O texto diz: “Venha a nós o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. Isso revela para nós o que Deus quer que nós oremos, antes mesmo de começarmos a pedir, de acordo com a ordem do Pai Nosso.
O pedido para que venha o Reino de Deus é curioso. Aqui, quem ora está se submetendo ao governo soberano do Salvador. É um pedido para que Deus revele através de nós a sua santidade, a sua justiça, os seus desejos, a sua luz. É pedir que Deus seja governante da nossa vida. Que o Reino comandado por Cristo seja o nosso guia diário, e que os nossos passos sigam as leis desse Reino. É um pedido que procura colocar de lado o que nós queremos: nossa própria Lei, que muitas vezes termina somente em ódio; nossa própria vontade, que muitas vezes nos leva a desejar coisas más; e nosso próprio ego, que tantas e tantas vezes nos distancia de Deus, porque queremos governar a nós mesmos. É dizer “que o governo de Deus prevaleça sobre o meu!”
O que se segue é igualmente impactante: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. Esse texto é devastador para o nosso ego humano. Aqui, antes mesmo de pedir o pão, antes de pedir perdão, antes de pedir livramento, Jesus ensina a pedir pela vontade de Deus. Que ela seja feita, e não a nossa! Veja: antes vimos o quanto Deus é soberano e exaltado e que devemos pedir o seu Reino. De forma semelhante, a oração é um lugar para pedir que a vontade de Deus se cumpra. Mas perceba uma coisa: a vontade de Deus vai se cumprir de qualquer jeito!
Então porque ele pediria que a gente orasse por isso? A resposta é mais complexa do que parece. Em suma, sabemos que por Deus ser soberano, tudo que acontece, acontece porque foi da vontade de Deus de alguma forma. Essas são coisas completamente certas. Então, a razão pela qual oramos isso não é para que se cumpra, mas por causa da nossa própria necessidade. Oramos pedindo que a vontade de Deus se faça porque nem sempre nós queremos de fato que ela se faça! Nós queremos tomar as rédeas, declarar para nós mesmos todas as bênçãos, usar a oração como se fosse um amuleto em que tudo que nós oramos se cumpre. A oração do Pai Nosso, entretanto, ensina um caminho de humildade. Eu sei que eu tenho vontade, mas a de Deus é maior. Se a minha não se cumpre, eu preciso que Deus mude meu coração para desejar aquilo que ele deseja.
Aqui, nós entramos na maior lição que a oração do Pai Nosso nos ensina: orar é uma prática que muda nós mesmos.
Deus nos ensina a orar, pedir, suplicar e dar graças. Todas essas coisas são excelentes! Mas a oração, principalmente, serve para mudar algo em nós.
Nós oramos, e na medida em que buscamos a Deus com sinceridade, ele ensina o nosso coração a amá-lo.
Nós oramos, e na medida em que o fazemos, Deus opera em nós de tal maneira que mesmo que a nossa vontade não se cumpra, nós aprendemos a amar o Senhor a ponto de aceitar e desejar a vontade dele!
Aqui, então, fica a pergunta que talvez seja a mais difícil de todas de responder: baseando-se nessa oração, como estão as minhas orações? Eu consigo entender a soberania de Deus? Eu consigo suportar a ideia de que nem tudo que eu peço realmente se cumprirá? Eu consigo entender que mesmo quando as coisas não correrem conforme eu quero, o Senhor está mais preocupado em cuidar de mim?
Essas são coisas difíceis de entender. No fim das contas, porém, o importante é lembrar quem Deus é, e o que ele quer fazer em nós. Ele não quer meramente nos ensinar a pedir ou a confessar. Ele quer nos moldar. Ele quer nos ouvir e trabalhar em nós. E para isso, nós precisamos aprender o que a oração do Pai Nosso tem a nos ensinar: humildade diante do Criador.
CONCLUSÃO
Aqui, portanto, fica o fim da nossa reflexão. A oração do “Pai Nosso” é riquíssima, e há algo poderoso a ser dito sobre cada versículo dela. Esses dois que vimos são somente as bases que precisam ser lançadas para se compreender o texto. A partir desses dois pontos, creio que Deus tem a nos falar para mudar completamente a nossa vida de oração.
Se formos humildes, entendendo a nossa posição diante de Deus, alcançaremos graça. E ele tem muita graça para nos dar!